Artigo

Ídolos não morrem

Todo profissional possui ídolos e pessoas que lhe servem de exemplo e referência dentro de sua área de atuação. John Lennon era fã de Chuck Berry e ao mesmo tempo ídolo de milhares de outros jovens cantores. Schumacher já declarou diversas vezes sua admiração por Ayrton Senna, que por sua vez foi fã de Fangio e Fittipaldi – este último também ídolo de Nelson Piquet. Vargas foi ídolo de Brizola, que foi ídolo de Darcy Ribeiro e muitos outros políticos. Exemplos não faltam em todas as áreas, especialmente entre jovens em formação. Não raro encontro nos cursos de comunicação candidatas às “vagas” de Fátima Bernardes à frente do JN ou de Mylena Ciribelli na área do telejornalismo esportivo, referências pelas suas atuações.

Celso Garcia já era meu ídolo antes de eu optar por cursar Jornalismo. Como bom flamenguista, eu sabia que aquele homem era o responsável por revelar Zico, maior ídolo da história do time da Gávea. Quando tive a oportunidade de ficar cara a cara com Celso, era como se estivesse de frente com o próprio Zico. Me recordo que apertei sua mão e lhe disse, como torcedor, “saudações rubro-negras” e um “muito obrigado”. Não me lembro qual foi seu comentário em seguida – o que não esqueço é de seu sorriso acompanhando aquela voz grave, firme e inconfundível.

Não tive a felicidade de ter o professor Celso (como o chamava) na condição de meu mestre de fato, em sala de aula, nem acompanhei sua fase mais brilhante no rádio, sobre a qual outros jornalistas poderão falar melhor que eu. Quando fomos apresentados, ele era responsável pelo boletim noticioso da Universidade Gama Filho e eu deveria auxilia-lo na transição deste house, totalmente batido à máquina, para um novo leiaute, feito e digitado em computador. A esta altura, ele já era um ícone do radiojornalismo e escrevia uma coluna para o Jornal dos Sports. Ensinei-lhe como lidar com as novas tecnologias, e a partir daí cada nova dúvida passou a ser discutida através do correio eletrônico.

Com apenas 25 anos de idade, fui encarregado de coordenar a Assessoria de Comunicação da UGF (Ascom), e Celso Garcia (com bem mais que o dobro de minha idade e mais de um quarto de década de jornalismo) foi lotado em meu setor. Jamais o tratei como subordinado; afinal, tinha muito mais a aprender com ele do que ensinar. O curioso é que cursamos juntos a pós-graduação de Formação de Docentes para o Ensino Superior. Mais tarde, lá estava eu como diretor do Curso de Comunicação Social, e lá estava o professor Celso Garcia, a convite meu, transmitindo sua paixão pelo jornalismo – especialmente o feito no rádio – para centenas de novos estudantes.

Sempre bem-humorado, o veterano jornalista não se importava com o falatório dos estagiários e jornalistas mais jovens na Ascom, muito pelo contrário. Gostava de trocar experiências e de vez em quando aparecia com uma história de sua vasta carreira para nos brindar. Dizia, por exemplo, que não acreditava em horóscopo, desde o dia em que a pessoa responsável pela informação da coluna deixou de enviar as previsões e ele foi incumbido de providenciar os textos para cada signo, cuidadosamente “clonados” de uma edição anterior...

Recordo-me de modo especial da manhã em que Zico foi à UGF receber um prêmio concedido por aquela universidade, e o professor Celso foi designado para ser o mestre de cerimônias do evento. Com emoção, convidou à mesa o Galinho de Quintino, e quebrou o protocolo ao se permitir enaltecer aquele que um dia levou para seu clube de coração. Zico, por sua vez, também fez elogiosas referências ao profissional que primeiro acreditou em seu futebol, e a quem hoje só se referia como “amigo”. Os papéis de fã e ídolo agora revezavam-se, e ambos assumiam declaradamente a condição de fãs, um do outro.

Apesar de já não nos vermos há algum tempo, a notícia do falecimento deste admirável jornalista me deixou triste por sua ausência física. Felizmente, entretanto, tenho que agradecer a Deus a oportunidade de minha trajetória profissional ter se cruzado com a de Celso Garcia, e principalmente pelo fato de ter-lhe dito, em vida, o quanto o admirava.

Antes de encerrar esta breve homenagem, gostaria de retomar a idéia inicial deste texto. Dizem os fãs de Freddy Mercury, Elvis, Cazuza e Renato Russo, entre tantos outros geniais artistas, que estes ídolos permanecem vivos, à medida que suas obras permanecem, enquanto suas músicas são tocadas no rádio e seus CDs e DVDs continuarem sendo executados. É através de sua experiência profissional compartilhada com colegas do rádio e ex-alunos que Celso permanece entre nós. Parafraseando Drummond e sua célebre frase “Cansei de ser moderno, agora quero ser eterno”, devo dizer sobre este profissional que sempre me demonstrou disposição para aprender e lidar com a modernidade: Celso, você também é eterno – ídolos não morrem.


AJ Chaves é jornalista e mestre em Ciência da Informação.

Artigo escrito em novembro de 2008 e publicado na Revista da Comunicação - ano II, número 2, setembro de 2011, da Universidade Candido Mendes.
Permitida a reprodução, desde que com a citação de autor e fonte.

Crédito da foto acima: arquivo de família.